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Entrevista com Sandya Eknaligoda
Sandya é a esposa de Prageeth Eknaligoda, jornalista e cartunista que desapareceu no Sri Lanka em 24 de janeiro de 2010. Leia a história.
O que você lembra do dia em que Prageeth desapareceu?
Prageeth saiu de casa entre 10h e 10h30 da manhã. Ele disse que iria a vários lugares, entre eles os escritórios do Lanka E News, e que, à tarde, participaria do “Bodhi Puja”, organizado no templo budista de Kelaniya com o objetivo de obter a bênção para o candidato à presidência Sarath Fonseka.
Prageeth foi sequestrado pela primeira vez em 28 de agosto de 2009. Ele foi levado com as mãos amarradas e os olhos vendados em uma van branca perto da nossa casa. Foi libertado na manhã do dia seguinte.
A partir daquele dia, ele começou a receber ameaças, sofrer perseguição e também ter seus telefones grampeados. Por isso, estávamos sempre em alerta. Se ele não estivesse em casa entre 21h e 21h30, eu ligava para saber se ele estava bem e a que horas iria chegar.
Da última vez que ele sumiu, liguei para ele às 21h15. O celular dele estava desligado. Fiquei ligando a noite toda. No dia seguinte, pela manhã, soube por um dos amigos dele que ele tinha saído com uma pessoa (de identidade desconhecida) que tinha vindo de Dambulla em uma van. (Essa pessoa desconhecida é o espião enviado pela inteligência do exército para sequestrá-lo. Ele prestou depoimento perante o juiz sobre o incidente.)
Para quais veículos de comunicação Prageeth trabalhava?
A partir de 2006, trabalhou principalmente como jornalista independente no site “Lanka E News”. Ele desenhava charges e escrevia artigos sobre política. Também colaborou com colunas políticas para os jornais “Siyarata” e “Kolamba” e para a revista “Vihiduma”.
Foi sugerido que um dos motivos do desaparecimento de Prageeth poderia ser uma investigação sobre o suposto uso de armas químicas contra civis pelas forças do Sri Lanka na luta contra os separatistas tamiles. Você acha que isso é possível?
Sim, é possível ler parte desse trabalho no artigo “As armas químicas e a guerra étnica”. Nesse artigo, é mencionado claramente como o governo reagiu quando foram divulgadas informações sobre o uso de armas químicas pelo LTTE. O governo entrou em pânico e emitiu uma declaração afirmando que não foram utilizadas armas químicas no Sri Lanka. E há evidências de que armas químicas foram utilizadas no Sri Lanka, apesar de o governo negar isso.
É um fato que, se algumas organizações ou o governo utilizaram armas químicas em uma guerra, essa guerra só poderia ter sido genocida.
Prageeth estava pesquisando e coletando informações sobre esse assunto. Com seu desaparecimento, todas essas informações foram perdidas.
Como a mídia abordou, na época, o desaparecimento de Prageeth?
Após seu desaparecimento, algumas instituições e meios de comunicação ajudaram a divulgar a notícia, mas os próprios meios de comunicação também foram a arma utilizada pelo governo para nos desacreditar e nos atacar.
Você soube de mais alguma coisa sobre a declaração de Dematagoda Chaminda, que afirmou ter liderado uma turma de bandidos que jogou o corpo de Prageeth no mar?
A declaração de Dematagoda Chamida veio à tona no início de 2012. Apesar de eu ter tentado incluir seu depoimento no pedido de habeas corpus por meio do meu advogado, o tribunal o rejeitou. Até o momento, não foi possível encontrar informações confiáveis que confirmem sua declaração.
Você ainda acredita que o governo é diretamente responsável pelo seu desaparecimento?
Quando a imprensa me perguntou, eu disse que Mahinda Rajapaksaera o responsável.
Continuo pensando a mesma coisa.
Os policiais responsáveis pela investigação do sequestro de Prageeth eram partidários de Rajapaksa. Rajapaksa e seus partidários apresentam os policiais presos como heróis de guerra perante a opinião pública, embora, na verdade, esses policiais tenham cometido crimes graves sob suas ordens.
Está claro que Mahinda Rajapaksa é o responsável pelo desaparecimento do meu marido.
Por que você acha que o governo queria silenciar Prageeth?
De acordo com as informações reveladas pelo Departamento de Investigação Criminal do Sri Lanka, os sequestradores o levaram para um acampamento do exército em Girithale, o interrogaram sobre um folheto (dossiê) sobre a família Rajapakse elaborado por ele, um CD de canções políticas (?) e perguntaram sobre sua relação com o general Sarath Fonseka, candidato à presidência. Acredito que essa seja a razão do sequestro de Prageeth.
Qual é a postura e a posição do atual governo em relação à investigação sobre o desaparecimento de Prageeth? Ele está recebendo apoio do governo?
Em janeiro de 2015, quando o atual presidente foi eleito e o governo mudou, a situação melhorou um pouco; foi nessa época que os relatórios das investigações sobre o desaparecimento de Prageeth foram entregues ao CID (Departamento de Investigação Criminal).
E conseguiram até mesmo localizar os criminosos, para levá-los a um juizado de instrução e prendê-los.
Durante o mandato do governo anterior, não foi realizada nenhuma investigação. Eles dedicaram todo o seu tempo e recursos a nos difamar (desacreditar) e a tentar provar que o desaparecimento de Prageeth era uma mentira.
Na reunião do comitê da ONU de 2011, o ex-procurador-geral Mohan Peiris declarou que soube, por meio de uma fonte confiável, que Prageeth havia se refugiado em um país estrangeiro, mas, quando foi intimado a comparecer ao tribunal de primeira instância após toda uma série de discussões enfadonhas, tudo o que ele disse foi que não conseguia se lembrar do nome do oficial que lhe deu essa informação e que só Deus sabia onde Prageeth estava.
E, em 2013, outro representante do regime de Rajapakse, o ministro Arundika Fernando, fez uma declaração no Parlamento afirmando que havia visto Prageeth e que ele estava na França. Além disso, foram realizadas outras campanhas de difamação contra Prageeth.
A melhor coisa que aconteceu desde a eleição do novo governo foi o anúncio do início de uma investigação séria. Acho que isso seria uma grande ajuda, mas, enquanto isso, a sobrevivência é uma luta. Apesar de o atual ministro ter declarado à imprensa que eles vão zelar pelo bem-estar da nossa família, isso ainda não aconteceu.
Quase 7 anos depois, em que ponto está a investigação? Há novas pistas?
Sim, já se passaram quase sete anos desde o desaparecimento de Prageeth. Ele foi sequestrado por oficiais da Inteligência do Exército do Sri Lanka; isso fazia parte dos planos deles. Alguns desses oficiais eram tenentes.
Não há apoio adequado e falta coordenação por parte das Forças Armadas do Sri Lanka para que as investigações avancem. E os oficiais que estão sob custódia continuam fingindo que não se lembram de nada e tentando ocultar informações.
Apesar dessa situação difícil, o CID descobriu muitas informações novas.
O que você está fazendo agora?
Entrei com o pedido de habeas corpus pelo desaparecimento de Prageeth em 19 de fevereiro de 2010. Todas as ações que empreendi desde então ocorreram dentro dos mecanismos legais e, além disso, participo de todas as ações sociais que posso para conscientizar a população, com o único objetivo de obter justiça.
A maioria das ações consiste em campanhas sociais de luta conjunta em prol das vítimas — nós, as vítimas de desaparecimentos forçados e suas famílias. Vou continuar lutando. Neste momento, o Sri Lanka está passando por uma situação muito complexa.
Embora seja uma pergunta um pouco difícil. Você acredita que vai encontrar o Prageeth?
Ao longo desses seis anos e sete meses, Prageeth tem sido minha força. Compartilho com ele toda a tristeza e as dificuldades que enfrento. Acredito que Prageeth esteve o tempo todo ao meu lado e, por isso, consegui superar os problemas que as pessoas mal-intencionadas vêm causando.
Não sei se conseguirei encontrar o corpo dele, mas o que estou lutando é pela verdade e pela justiça. Verdade e justiça para Prageeth, para mim, para meus filhos e para todas as pessoas que foram vítimas de desaparecimentos forçados.
É difícil ser ativista dos direitos humanos no Sri Lanka? Como foi essa transição de cidadã “comum” para ativista?
Apesar de ser uma cidadã comum, uma dona de casa, meu trabalho me obrigou a lidar diretamente com as pessoas. Entre os 18 e os 20 anos, participei de diversas atividades sociais; por isso, não sinto uma grande diferença entre ser uma defensora dos direitos humanos e uma cidadã comum.
O principal problema é que tudo isso é trabalho voluntário. Sou mãe e preciso criar meus filhos sem nenhuma ajuda. E farei isso de qualquer jeito, mesmo que isso me obrigue a vender pacotes de arroz ou a fazer qualquer outro tipo de trabalho.
Foi publicado um livro com os trabalhos de Prageeth. É possível comprar o livro de Prageeth pela internet?
Os livros que reúnem seus artigos foram publicados apenas em cingalês. O livro que contém sua coleção de tirinhas foi publicado em cingalês, tâmil e inglês, mas não está disponível para compra na internet.
*Algumas expressões que não alteram o contexto são traduzidas literalmente (ou com a interpretação mais próxima possível), enquanto outras, que são ambíguas, são eliminadas, pois as respostas foram traduzidas duas vezes, de dois idiomas diferentes, durante o processo.





