Osmani Simanca foi demitido do jornal brasileiro “A Tarde” por suas críticas ao governo

16.07.2026|

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Osmani Simanca foi demitido do jornal brasileiro “A Tarde” por causa de suas críticas ao governo

Caricatura de Osmani Simanca (01/08/2017)

Em junho de 2017, o cartunistaOsmani Simancafoi demitido do jornal brasileiro A Tarde.

Esse cartunista cubano, naturalizado brasileiro, trabalhava há mais de 15 anos para o jornal, o mais antigo do estado da Bahia e um dos mais antigos do Brasil. Ele é publicado desde 1912.

Segundo o autor, ele não foi demitido por causa de uma charge específica, mas sim por suas críticas ao governo de Michel Temer e seus aliados. Ou seja, pelo conjunto de suas charges de 2016.

Em uma postagem em sua página do Facebook, ele explicou que, após a penúltima mudança na direção do jornal, começou a ser questionado sobre o conteúdo de suas charges, algumas das quais foram censuradas, e aproveitou para relembrar algumas das doenças crônicas do jornalismo.

"É difícil ter liberdade sem independência econômica. A maior parte da imprensa sempre dependeu da propaganda dos governos. Isso não seria um problema se esses governantes não pressionassem os jornais e os jornalistas, e se os jornalistas e jornais democráticos não se deixassem pressionar a escrever elogios ou críticas injustas. Nosso rumo deve ser sempre definido pela ética e pela virtude, coisas raras nestes tempos sombrios, repletos de ódio e intolerância”.

Joseph Pulitzer dizia: “Uma imprensa cínica, mercenária e demagógica produzirá um povo cínico, mercenário e demagógico”.

Muitas tirinhas rejeitadas

Osmani Simanca foi demitido do jornal brasileiro “A Tarde” por causa de suas críticas ao governo

Cariatura de 22 de novembro de 2016, rejeitada pela direção do jornal, com caricaturas (da esquerda para a direita) de Romero Jucá, Michel Temer e Geddel Vieira.

Essas tirinhas rejeitadas foram publicadas na época com bastante repercussão em outros meios de comunicação; ele também ressalta que, há muito tempo, os textos de seus colegas eram cortados, mas nunca as tirinhas. A tirinha continuava sendo “um pequeno oásis em um deserto de tesouras”.

Osmani Simanca despedido del diario brasileño "A Tarde" por sus críticas al Gobierno
Cariçola rejeitada pelo jornalA Tarde em 21 de novembro de 2016

Segundo Osmani, uma nova mudança na direção complicou ainda mais o relacionamento.

As pressões aumentaram a tal ponto que tive que explicar o que era uma charge e qual era o papel da sátira política em uma sociedade democrática e na imprensa livre.

Me perguntaram quem me dava as ordens, ao que respondi que as ordens eram os fatos, os quais eu investigava a fundo, consultando várias fontes e expressando minha opinião por meio do jornalismo gráfico, utilizando a caricatura política.

Avisaram-me, então, para não abordar certos temas e personagens, uma tarefa impossível em meio à podridão política e ética em que se encontra o Brasil.

Primeira nota do autor, 12 de junho de 2017

Segunda nota, 19 de junho de 2017

Entrevista com Osmani Osmani Simanca despedido del diario brasileño "A Tarde" por sus críticas al Gobierno

  Quando te alertaram para não abordar certos temas ou personagens... Eles mencionavam nomes de pessoas e assuntos específicos? Como justificavam esse “pedido” para você ficar calado?

 Normalmente não dizem o motivo “oficial”. Começaram com insinuações, depois foram mais diretos: Temer, Geddel... o governo em geral. No fim das contas, o que eles querem é que você se autocensure. Você precisa ser firme.

  Como e quando você foi informado da demissão?

A chefe de redação me comunicou isso no dia 9 de junho de 2017, durante uma reunião em seu escritório. Não era uma decisão pessoal, era algo que, ao que parece, vinha de cima. Do diretor-geral.

Essa demissão era algo que poderia acontecer a qualquer momento. Pouco mais de um ano antes de ser demitido, me posicionei claramente contra o impeachment da presidente Dilma, por considerá-lo um processo de caráter político, sem nenhuma prova. Uma verdadeira injustiça. O tempo me deu razão. Os insensatos são incorrigíveis.

Qual foi a última charge publicada pelo jornal?

Esta que estou anexando.

Osmani Simanca foi demitido do jornal brasileiro “A Tarde” por causa de suas críticas ao governo

 Qual foi o impacto local das suas matérias sobre a censura e as pressões por parte do jornal? 

Recebi vários reconhecimentos e prêmios pelo meu trabalho, publicados durante os anos em que trabalhei no jornal. A diretoria e os novos investidores não tinham a menor ideia do impacto disso, ou provavelmente não se importavam com isso. A solidariedade que recebi foi enorme. Fiquei sabendo que um grande número de leitores cancelou suas assinaturas.

O jornal deu algum tipo de explicação pública sobre a sua demissão?

Não, ele ficou em silêncio porque sabia que eu estava certo.

 Ao longo de 15 anos de tirinhas, passaram-se por diferentes administrações no jornal e pelo menos quatro governantes no país. Com quais gestores e governantes você acha que foi mais difícil fazer seu trabalho?

Durante os governos de Lula e Dilma, não houve nenhum problema com minhas charges que criticavam os erros da esquerda. Sem dúvida alguma, o trabalho tem sido mais difícil nos jornais desde que o usurpador Michel Temer assumiu o governo.

Também me pediram para não fazer caricaturas do prefeito de Salvador, ACM Neto (Partido Democrata), neto de um famoso caudilho baiano, que também não gosta de sátira.

Por coincidência, ele e sua família têm um jornal que concorre com o jornal “A Tarde”, no qual não há espaço para charges políticas.

Eu suspeitava, mas nunca imaginei que houvesse tanta gente de direita mal-humorada no Brasil. Pode ser o efeito da falta de leitura, como dizia Unamuno: “O fascismo se cura lendo”.

Liberdades em jogo

 E a pergunta de sempre: como você acha que está a situação da liberdade de imprensa e de expressão no Brasil atualmente? Qual você acha que é a principal ameaça a ela?

Quando ocorre uma ruptura democrática por meio de um golpe, seja ele militar ou parlamentar — que é o novo método utilizado na América Latina para destituir um presidente eleito pelo voto popular —, isso afeta profundamente a liberdade de imprensa e de expressão.

Osmani Simanca foi demitido do jornal brasileiro “A Tarde” por causa de suas críticas ao governo

Se não houver uma mudança, a tendência é que as coisas piorem. O Congresso brasileiro está dominado por criminosos e hipócritas. Os evangélicos têm 197 cadeiras, mas, por enquanto, não são maioria.

O objetivo é eleger, no futuro, um evangélico como presidente do Brasil. O Rio de Janeiro já elegeu recentemente um prefeito desastroso da Igreja Universal do Reino de Deus, popularmente conhecida na América Latina como“Pare de Sofrer”.

Caso esses religiosos disfarçados de políticos — ou vice-versa — obtenham a maioria no Parlamento, colocarão em risco o Estado laico e, consequentemente, outras liberdades serão suprimidas.

Atualização de setembro de 2017

A Polícia Federal brasileira encontrou,na terça-feira,5 de setembro,malas e caixas cheias de dinheiro em um apartamento que era usado pelo ex-ministroGeddel Vieira Lima, antigo e próximo colaborador do presidenteMichel Temer. Até o momento, foi contabilizado o equivalente a mais de 10 milhões de euros.

Geedel foi preso em julho por obstrução à justiça em um caso relacionado à corrupção e acusado de tráfico de influências.

Acusado de ter recebido um suborno de 20 milhões de reais em troca de empréstimos do banco público Caixa Econômica Federal quando era vice-presidente da instituição, ele foi preso e ficou dez anos na prisão; desde então, cumpre prisão domiciliar.

Osmani desenhou esta charge relacionada ao assunto.

Osmani Simanca foi demitido do jornal brasileiro “A Tarde” por causa de suas críticas ao governo

Sobre o autor

Osmani Simanca nasceu em Santa Clara, Cuba, em 1960.

Formou-se na Academia de Belas Artes “San Alejandro” e no Instituto Superior de Arte de Havana.
Iniciou sua carreira como cartunista em 1975, na revista humorística Dedeté, em Havana.
Seus desenhos foram publicados em inúmeras revistas e jornais ao redor do mundo. Desde 1995, mora no Brasil, onde obteve a nacionalidade.
Desde 1987, recebeu vários prêmios e participou de exposições em Cuba, Brasil, Itália, Irã, Grécia e Espanha.

Fonte: entrevista de 2010 (PDF)

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