O outro Quino

07.09.2026|

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O outro Quino - Vinheta 2

Quino faleceu, mas, na verdade, partiu outro Quino, além daquele que quase todos lembram hoje como o pai de Mafalda.

Para uma criança da periferia, de classe baixa e quase na pobreza, já bem avançada a década de 70, a única opção para ter acesso a leituras que as bancas não ofereciam era peregrinar até a biblioteca mais próxima, percorrendo grandes distâncias por terrenos baldios e ruas sem asfalto repletas de perigos, muitos deles reais e outros que só existiam em nossas mentes.

Sem ter idade suficiente nem conhecimento para distinguir entre “tebeos” e “comics”, os primeiros já nos pareciam coisas para crianças, e os outros, para garotos que já davam os primeiros sinais do processo de transição para a puberdade.

Naqueles santuários de gente silenciosa, abarrotados de livros enfadonhos cheios apenas de letras, além dos habituais tomos da Bruguera, como *Magos del Humor* ou *Súper Humor*, havia apenas uma prateleira com aquilo que não era nem uma coisa nem outra. Lá, muitos descobriram Hugo Pratt, Hergé e também Quino, além de muitos outros grandes autores de fora.

Crescendo entre desenhos

Se, quando era criança, eu ficava fascinado por aquelas páginas que pareciam ter sido feitas por super-humanos, agora, como adulto, qualquer autor merece todo o meu respeito (com algumas exceções). Aqueles que se esforçam porque agora sei do sacrifício que isso exige e outros por conseguirem ganhar a vida desenhando tirinhas sem perder a ilusão.

Não se passaram muitos anos e tudo aquilo já nos parecia leitura infantil; para se terem uma ideia, até mesmo os cartunistas dos jornais me pareciam uns “molequinhos” entediantes. Os ousados anos 80 nos revelaram o que chamavam de “underground”, que trouxe um novo fôlego às bancas, e também algo ainda mais “under”: os fanzines.

E assim, entre desenhos, como aquele em que se pisca duas vezes, você já tinha crescido. Muitos continuaram lendo quadrinhos. Outros, os mais malucos, acreditaram que poderiam até mesmo desenhá-los. Em todos os casos, voltar àquilo que lemos continua sendo um exercício inevitável e agradável, com sua dose de nostalgia e redescoberta.

O Quino sem palavras

Com o Quino, aconteceu algo parecido comigo. Mafalda, sua personagem mais popular e hoje tão explorada na internet, me parecia excessivamente “branca”, em parte porque, naquela época, não tínhamos muito contexto sobre os desdobramentos da sociedade argentina. Também me parecia ser serializada como qualquer outro produto comercial. Não é à toa que suas origens foram uma tentativa de ilustrar uma campanha para vender eletrodomésticos.

O outro Quino - Vinheta 4

Já bem adulto, descobri que o charme de Quino estava justamente nesse humor sem palavras. Desenhar um bom humor mudo é jogar em categorias superiores. E se, além disso, for preciso criar não apenas uma tira, mas páginas inteiras, ainda mais.

Quino, um sujeito sempre discreto e humilde, abordou com maestria e sem palavras quase todos os temas folclóricos leves e tantos outros complexos para o humor, como o suicídio, o machismo, a prostituição, a violência doméstica, a repressão e outras questões de hoje, de ontem e de sempre. Em algumas dessas peças, mesmo recorrendo a uma piada simples, ele consegue que ela se destaque e brilhe por sua resolução na parte gráfica.

Quino partiu, deixando um grande vazio e muitas boas tirinhas para ler e reler. Ele faleceu na quarta-feira, 30 de setembro de 2020, aos 88 anos, em Mendoza (Argentina), a cidade onde nasceu. Todas as ilustrações são apenas uma pequena amostra e pertencem ao livro“Esto no es todo”, da editora Lumen (2001). Um volume muito rico, com mais de quinhentas páginas, entre os muitos que foram publicados e que continuarão sendo publicados.

Biografia

O outro Quino

 Relacionado: Em busca de Quino. Último documentário (junho de 2020)

O outro Quino - Vinheta 2
O outro Quino - Vinheta 2
O outro Quino - Vinheta 2
O outro Quino - Vinheta 2
O outro Quino - Vinheta 2
O outro Quino - Vinheta 2
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O outro Quino - Vinheta 8
O outro Quino - Caricatura 7
O outro Quino - Vinheta 6
O outro Quino - Vinheta 5
O outro Quino - Vinheta 3
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